Pontos-chave
Perda do contrato por suspeita de IA
Jerry Falade teve seu acordo de mais de US$ 2 milhões cancelado após suspeitas de uso de inteligência artificial na escrita.Falade nega uso de IA na redação
O autor afirma que usou IA apenas para pesquisa técnica, não na escrita do romance.Falhas em detectores de IA e impacto editorial
Detectores de IA falham ao identificar autoria real, gerando dúvidas e riscos jurídicos no mercado editorial.O escritor Jerry Falade, estudante de pós-graduação na Southern Methodist University, em Dallas, perdeu um contrato de mais de US$ 2 milhões depois que sua própria agência levantou suspeitas de que ele usou inteligência artificial para escrever seu romance de estreia.
Falade nega as acusações e disse ao Wall Street Journal que é inocente.
O livro que virou leilão entre 14 editoras
“Call Me, I’ll Hide the Body” é um romance policial sobre um jovem que limpa cenas de crime e some com corpos. O manuscrito gerou uma disputa entre 14 editoras nos Estados Unidos. A Minotaur, selo da Macmillan, fechou um contrato de dois livros avaliado em mais de US$ 2 milhões. A HarperCollins comprou os direitos no Reino Unido, e estúdios de Hollywood já negociavam a adaptação para cinema e TV, segundo a Deadline.
Por que o acordo caiu
Pouco depois de fechado o contrato, o agente Marc Gerald, da Europa Content, avisou as editoras por e-mail que não podia mais sustentar o livro. Segundo a Deadline, o texto dizia que a agência não conseguia mais autenticar como o manuscrito tinha evoluído “da origem até a conclusão”. Antes disso, a agência confiava na garantia do próprio Falade de que ele não tinha usado IA para escrever ou editar o livro.
Falade diz que usou IA só na fase de pesquisa, nunca na escrita. Ele contou ao WSJ que recorreu a um modelo de código aberto rodado localmente para tirar dúvidas técnicas, como detalhes forenses, porque essa ferramenta não guarda um histórico extenso de buscas. Segundo ele, não queria que perguntas ligadas ao tema do livro, como formas de descartar um corpo, ficassem registradas em seu histórico de pesquisa.
“Definitivamente inocente”
Em uma sequência de posts no Instagram, Falade escreveu “Definitivamente inocente!!!” e disse que a suspeita tem motivação racial. Ele citou outros dois casos recentes de autores negros com livros cancelados por suspeita de uso de IA: Mia Ballard, cujo romance “Shy Girl” foi retirado pela Hachette em março, e HM Wolfe, autora de “Daggermouth”. O IA Land já mostrou uma situação parecida, a de uma escritora que ganhou um prêmio e só depois revelou que tinha usado o ChatGPT. Falade também mostrou mensagens de professores que leram trechos do livro já em 2021, antes da popularização de ferramentas como o ChatGPT.
Detectores de IA erram mais do que parece
O caso reacende a dúvida sobre a confiabilidade dos detectores de IA usados por editoras. Essas ferramentas tentam flagrar um estilo de escrita “artificial demais”, mas o próprio ChatGPT já foi ajustado para não imitar mais o estilo de autores específicos, o que muda o próprio alvo que os detectores tentam identificar. A Authors Guild testou cinco dessas ferramentas e alerta que elas não conseguem distinguir com segurança um texto humano de um gerado por máquina. Em maio, o Commonwealth Short Story Prize marcou por engano um conto vencedor como 100% gerado por IA pela ferramenta Pangram, e depois voltou atrás. A entidade recomenda que editoras nunca cancelem um contrato só com base nesses testes, e vale a pena entender por que esses sistemas de detecção falham tão fácil.
Sem regras claras no mercado editorial
Não existe hoje um padrão da indústria para comprovar autoria. Segundo a Publishers Weekly, parte da cautela das editoras vem de um problema jurídico: texto gerado por IA pode não ter proteção de copyright, o que deixaria compradores de direitos sem garantia legal. A Associação Americana de Agentes Literários também se manifestou sobre o caso.
Falade já contratou um advogado e diz que vai continuar escrevendo, mesmo com o contrato cancelado.
