IA está comprando e destruindo livros raros aos montes

Empresas de IA compram e destroem livros físicos raros para digitalizar conteúdos limpos de textos gerados por outras IAs, gerando impacto controverso no mercado editorial.
Livro antigo escaneado com páginas se dissolvendo em pixels corrompidos

Pontos-chave

Empresas de IA compram e destroem livros físicos

Companhias compram livros raros para escanear e destruir os exemplares físicos visando treinar IAs, prática crescente mesmo após acordos judiciais.

Mercado intermediário sigiloso para venda de livros a IA

Livrarias e bancos de dados ajudam empresas de IA a comprar grandes volumes de livros e mantêm as compras em sigilo para evitar repercussões públicas.

Desafios legais e prejuízo cultural

A doutrina da primeira venda permite transformar livros físicos em digitais sem autorização, mas há processos por uso indevido e preocupação com sumiço de exemplares raros e fora de catálogo.

Empresas de inteligência artificial estão comprando livros físicos raros e antigos só para escanear o conteúdo e depois destruir o exemplar. A prática já rendeu à Anthropic um dos maiores acordos judiciais da história por direitos autorais, e mesmo assim continua crescendo.

Segundo reportagem da 404 Media, o movimento ganhou força porque livros impressos antes da explosão dos chatbots são vistos como um material limpo, sem o risco de conter texto gerado por outra IA.

Por que os livros físicos viraram alvo

Durante anos, empresas como Meta e Anthropic recorreram a cópias digitais piratas para treinar seus modelos. A Anthropic já tinha sido flagrada triturando milhões de livros físicos para treinar sua IA, usando uma máquina de corte hidráulica para arrancar as páginas de exemplares comprados de sebos e distribuidoras, e depois escaneando cada página com equipamento de imagem industrial.

Essa engenharia reversa é permitida por um princípio legal chamado doutrina da primeira venda, que dá ao comprador de um livro o direito de fazer o que quiser com o exemplar, sem precisar da autorização de quem detém os direitos autorais. Como a empresa transformava o livro físico em arquivo digital, em vez de revender cópias, a Justiça considerou o processo transformativo e protegido pelo conceito de uso justo.

Não é a primeira vez que uma empresa de IA testa os limites do direito autoral: Disney e Universal também processam a Midjourney por plágio de suas obras, em uma disputa separada sobre uso de material protegido.

Um mercado de intermediários nasceu ao redor da prática

Com o hábito normalizado, até livrarias tradicionais passaram a atender empresas de IA. A ISBNdb, que se descreve como dona do maior banco de dados de livros do mundo, publicou em seu site que “os melhores dados de treinamento de IA do mundo estão empoeirados numa prateleira”, segundo a 404 Media. A empresa hoje ajuda clientes a comprar de 1.000 a 1 milhão de livros por pedido e promete manter essas compras em sigilo, evitando que uma empresa de IA vire manchete por destruir acervos inteiros.

Um pequeno vendedor de livros usados contou à 404 Media que, a partir de abril, passou a vender centenas de exemplares por semana, um salto em relação às cerca de 20 unidades que vendia normalmente. Ele desconfia que os compradores sejam laboratórios de IA, porque os pedidos reúnem títulos aleatórios que têm em comum apenas o fato de possuírem ISBN, e boa parte do seu estoque é de livros raros ou fora de catálogo. Ele diz ter sentimentos contraditórios sobre a situação: o movimento ajuda financeiramente e esvazia um estoque parado, mas incomoda saber que exemplares incomuns estão sendo destruídos.

Fora dos Estados Unidos, o fenômeno também preocupa. Segundo o NL Times, livreiros de livros raros na Holanda relatam receber pedidos de compra em grande volume que acreditam vir de empresas de IA, embora não tenham como confirmar a origem.

O preço que a Anthropic já pagou por fazer isso com livros piratas

O acordo de US$ 1,5 bilhão da Anthropic trata de cópias digitais baixadas ilegalmente, não dos livros físicos comprados e destruídos, mas dá uma ideia do tamanho do problema. De acordo com a Courthouse News, o valor cobre cerca de 482 mil obras, com autores e editoras recebendo em média US$ 3.100 por livro. A Justiça também determinou que a Anthropic destrua os arquivos digitais baixados de bibliotecas piratas em até 30 dias após a decisão final e comprove que nenhum desses arquivos foi usado para treinar versões comerciais de seus modelos.

Ninguém sabe ao certo quantos livros já sumiram

Como serviços como a ISBNdb mantêm o anonimato dos compradores, os próprios vendedores de livros raros dizem que só podem desconfiar, nunca confirmar, quando um pedido em massa vem de uma empresa de IA. Isso significa que exemplares raros, em outros idiomas ou fora de catálogo podem estar desaparecendo de circulação sem que ninguém consiga rastrear o comprador.

Perguntas e Respostas

Por que empresas de IA estão comprando livros físicos raros?

Para escanear e treinar modelos com material limpo sem texto gerado por IA.

Qual base legal permite a destruição dos livros após compra?

A doutrina da primeira venda que permite uso transformativo sem autorização.

Como o mercado de venda de livros está sendo afetado?

Livrarias vendem em volume muito maior para empresas de IA, esvaziando estoques.

Quais as consequências jurídicas sofridas pela Anthropic?

Pagou US$ 1,5 bilhão por uso ilegal de cópias digitais piratas.
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