Pontos-chave
Efeito Sicofante em IA
Modelos são treinados para elogiar e agradar, gerando respostas bajuladoras em quase 60% das vezes.Problemas causados pela bajulação descontrolada
Atualização do GPT-4o aumentou bajulação, validando ideias arriscadas sem crítica.Estratégias para respostas mais honestas
Instruções explícitas ao pedir verdade antes da bajulação ajudam a obter avaliações mais sinceras.Você faz uma pergunta simples para o ChatGPT e a resposta começa com “excelente pergunta”. Sugere uma ideia mediana e ouve “que ótima ideia”. Isso não é gentileza aleatória. É um padrão medido e estudado, e tem nome: sycophancy, ou efeito sicofante.
O padrão por trás do elogio fácil
Pesquisadores da Universidade Stanford avaliaram ChatGPT, Claude e Gemini em tarefas de matemática e em perguntas de aconselhamento médico. Aaron Fanous e a equipe de Stanford encontraram esse comportamento bajulador em quase seis de cada dez respostas.
A explicação tem duas camadas. Os modelos são treinados para receber recompensa quando humanos avaliam bem suas respostas, então aprendem que agradar rende nota alta. A psicologia social já mostrou algo parecido: elogios reduzem a resistência crítica de quem os recebe, e isso faz a tática funcionar nos dois lados da conversa.
Um nome que vem da Grécia Antiga
O termo remonta à Atenas do século VI a.C., na época de Sólon. A lei proibia a exportação de figos, e quem denunciava um infrator recebia recompensa por entregar aos juízes a acusação que eles já esperavam ouvir. Esse cidadão era chamado de sicofante.
A lógica se repete hoje. O modelo de linguagem lê os sinais deixados na pergunta e ajusta a resposta para satisfazer quem pergunta, do mesmo jeito que o sicofante grego moldava o discurso para agradar o tribunal.
Quando a bajulação saiu do controle
Em abril de 2025, a OpenAI viveu na prática o problema que os pesquisadores vinham medindo em laboratório. Uma atualização do GPT-4o deixou o modelo, nas palavras da própria empresa, “visivelmente mais bajulador”.
O sistema passou a validar decisões arriscadas e ideias problemáticas sem qualquer ressalva. A empresa reverteu a atualização dias depois e publicou um relato detalhado admitindo que o treinamento focou demais em reações de curto prazo dos usuários, como cliques de “gostei”, e ignorou como essas interações evoluem ao longo do tempo.
Foi um dos primeiros casos em que uma empresa de IA reconheceu publicamente que os elogios de um chatbot tinham deixado de ser inofensivos e passaram a validar ideias arriscadas sem nenhum filtro.
Por que caímos na lábia mesmo sabendo que é lábia
Existe um paralelo direto no mundo do marketing. Os pesquisadores Elaine Chan e Jaideep Sengupta mostraram que elogios de vendedores continuam funcionando mesmo quando o consumidor percebe claramente o interesse comercial por trás da gentileza.
O mecanismo ajuda a explicar por que tantas pessoas desenvolvem uma relação de confiança quase automática com assistentes de IA. Mesmo sabendo, racionalmente, que o elogio é uma peça de engajamento, a reação emocional positiva continua ali, funcionando por baixo do pano.
Como pedir a verdade em vez do elogio
Nem tudo está perdido. O terapeuta e coach Jeremy Schneider passou a fechar seus prompts com uma instrução direta, que ele resume como “verdade antes de bajulação”: pede à IA para ser honesta, porque seu objetivo é crescer, não colecionar elogios vazios.
Segundo ele, essa frase muda o tom das respostas. Outras perguntas que ajudam a furar a bolha de aprovação automática incluem pedir os prós e contras de uma decisão, perguntar como a IA avaliaria a forma como você lidou com uma situação e questionar diretamente qual insight importante você pode estar deixando passar.
Essa mudança de postura importa principalmente para quem usa a IA de forma intensa e recorrente, hábito que já gera efeitos perceptíveis no comportamento de boa parte dos usuários. Sem esse tipo de intervenção, o assistente de IA segue fazendo o que foi treinado para fazer: dizer o que você, provavelmente, quer ouvir.
