Pontos-chave
Uso de IA para impedir fraudes
UNAM adotou sistema de inteligência artificial para monitorar a prova online e evitar cola.Indícios de fraude em massa
Anulação de quase 3 mil provas e aumento atípico de notas máximas indicam irregularidades.Nova prova presencial para garantir integridade
Universidade aplicará nova prova presencial para todos os aprovados neste e nos últimos cinco anos.Daniel Fernando García Velázquez fez a prova de admissão da universidade mais concorrida do México quatro vezes. Na quarta tentativa, tirou 94 de 120 pontos, nota que deveria garantir sua vaga. Mesmo assim, ele não sabe se vai poder estudar no semestre que começa em 10 de agosto.
O motivo é uma investigação que sacode a Universidade Nacional Autónoma de México (UNAM), a instituição mais prestigiada do país. Pela primeira vez em sua história, a universidade aplicou a prova de admissão online neste ano, com apoio de um sistema de inteligência artificial criado para impedir fraudes. O resultado saiu bem diferente do esperado.
Uma prova pensada para acabar com a cola
Mais de 150 mil pessoas fizeram o exame em maio e junho, disputando 21.962 vagas.
Para vigiar os candidatos à distância, a UNAM contratou um sistema baseado em inteligência artificial. Segundo a universidade, a ferramenta permitiria capturar e registrar qualquer comportamento e ação de cada participante, servindo de apoio à supervisão feita por pessoas.
Um mês depois, pouco antes de divulgar os resultados, a universidade fez um anúncio inesperado. Cerca de 3 mil provas, perto de 2% do total, tinham sido anuladas por comportamentos contrários ao edital e à legislação universitária. Na época, não deu mais detalhes.
Os números que acenderam o alerta
Depois, veio à tona o que motivou a anulação: um número de notas perfeitas muito acima do normal.
Alma Maldonado, integrante da comissão técnica que investiga o caso, disse ao programa Perspectivas, da CNN, que a quantidade de estudantes com nota máxima triplicou em relação a anos anteriores.
Ela também apontou um salto nos extremos opostos: mais candidatos zerando a prova ou acertando só uma ou duas questões, o que reforçou a suspeita de irregularidades.
Como driblaram o sistema de vigilância
Nas semanas seguintes ao exame, vídeos ensinando a enganar o sistema de monitoramento viralizaram no TikTok e em outras redes sociais.
Daniel Flores Miranda, outro candidato, contou à CNN que um conhecido ofereceu a ele um programa de inteligência artificial capaz de resolver a prova. O preço cobrado era 2.500 pesos mexicanos, cerca de 150 dólares.
Flores Miranda não usou o serviço, mas disse conhecer gente que topou e passou no exame.
A defesa da empresa por trás da vigilância
A Territorium Life, empresa contratada para aplicar a prova e operar os sistemas de reconhecimento e monitoramento por IA, defendeu sua tecnologia diante das críticas.
Em carta enviada à comissão técnica, a empresa afirmou que a plataforma “operou como planejado” e que a integridade do processo depende da combinação entre segurança tecnológica e segurança acadêmica.
Por que o caso pesa tanto para a UNAM
A UNAM nasceu no século 16 e ganhou autonomia em 1929. Hoje é vista como símbolo do México e uma das principais portas de mobilidade social num país em que faculdade particular custa caro para a maioria das famílias.
Todo ano, mais de 100 mil pessoas disputam vaga na universidade, e entre 80% e 90% ficam de fora.
O que vem agora para os candidatos
Na sexta-feira, a UNAM informou ter recebido o resultado da investigação da comissão técnica. Segundo a universidade, parte dos candidatos usou celular, ajuda de outras pessoas durante a prova e até fraude de identidade.
Por isso, a universidade decidiu aplicar uma nova prova, desta vez presencial, para todo mundo que atingiu a nota de corte neste ano ou nos últimos cinco anos. Isso soma cerca de 58 mil candidatos.
Data e local da prova de controle ainda não foram divulgados. A comissão recomendou que ela aconteça o quanto antes, para reduzir o impacto no semestre que já começou.
O caso ganhou repercussão política. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, que também é formada em física pela UNAM, sugeriu que a universidade peça apoio da Procuradoria Geral da República para chegar ao fundo da questão.
O reitor da UNAM, Leonardo Lomelí, pediu “comportamento ético” de quem for refazer a prova, dizendo que fraudar o processo prejudica não só a instituição, mas a sociedade como um todo.
