O som que um data center de IA faz 24 horas por dia

Moradores de Dowagiac enfrentam ruído constante de data center de IA, que afeta até crianças e motivou ação judicial inédita contra a empresa.
Pessoa em ambiente escuro segura a cabeça com expressão de desconforto enquanto a imagem apresenta fortes distorções digitais, falhas, serrilhado e efeito de glitch em tons de roxo e azul, ilustrando o ruído constante e a intensa atividade de um data center de inteligência artificial operando 24 horas por dia.

Pontos-chave

Impacto do ruído nas famílias

O barulho constante dos ventiladores do data center causa sofrimento e problemas de saúde para moradores.

Regulamentação municipal e multas

Dowagiac criou lei de ruído industrial e aplicou multa à Hyperscale Data, que contesta as medições.

Ação judicial e preocupações ambientais

Moradores, incluindo grávida, moveram processo por excesso de ruído que prejudica a qualidade de vida.

Um zumbido agudo, constante, dia e noite. É assim que moradores de Dowagiac, uma cidade pequena de Michigan, descrevem o som que sai de um data center de inteligência artificial instalado do outro lado da rua onde moram.

O barulho vem de um data center conhecido como Hyperscale Data, operado pela Alliance Cloud Services, empresa de Las Vegas. Segundo vizinhos, o som roda sem parar desde 2024, quando o sistema de refrigeração da instalação passou a funcionar 24 horas por dia.

Um vizinho que virou tortura, segundo moradores

Lindy Valenzuela, Marjorie Finn e Billy Finn moram na Louise Avenue, uma rua sem saída, bem de frente para o data center. Até 2018 havia uma fileira de pinheiros separando as casas da instalação industrial. As árvores caíram, entrou uma doca de carga e, por volta de 2021, começou ali uma operação de mineração de criptomoeda.

Para Billy Finn, o som lembra cenas de filme. Ele comparou a situação a alguém preso numa cela sendo torturado com barulho, dizendo que “é basicamente isso” o que os vizinhos vivem.

Marjorie, esposa de Billy, tem a casa da família há quase 100 anos e hoje enfrenta Parkinson. Ela diz que não consegue mais abrir as janelas nem nos dias mais frescos, porque o som entra direto.

Uma primeira gravação, feita com celular e divulgada em vídeo no TikTok, já tinha registrado picos de 60 decibéis no quintal de um dos moradores. Um áudio mais recente, captado pela ABC7 com equipamento mais sensível, mostra a real extensão do som.

A cidade criou uma lei, e já aplicou multa

Em março, Dowagiac aprovou sua primeira lei municipal de ruído industrial, com limite de 65 decibéis durante o dia e 55 à noite. A prefeitura já multou a Hyperscale Data por descumprir a regra, mas a empresa contesta a forma como a medição foi feita.

Enquanto isso, a companhia vinha planejando uma expansão da unidade sem avisar a cidade, segundo a prefeitura, que diz ter sido pega de surpresa.

Diante da pressão, o CEO da Hyperscale Data, William Horne, foi convidado pelo prefeito de Dowagiac a falar direto com os moradores em uma reunião pública. Ele anunciou um investimento de 100 milhões de dólares para expandir a computação de IA e robótica no local, deixando de lado a mineração de cripto. Sobre as famílias mais afetadas, disse apenas que, se elas continuarem insatisfeitas, a empresa “vai comprar a propriedade delas”.

A resposta não convenceu os moradores presentes, que discursaram um atrás do outro contra a empresa na mesma reunião.

Uma grávida, um bebê e uma ação judicial

Lindy Valenzuela está grávida e tem um filho de 17 meses cujo quarto fica voltado para o data center. Ela conta que o som dos ventiladores entra pela janela até o berço à noite, o que a preocupa.

Por isso, ela é uma das autoras de uma ação judicial inédita contra a empresa, movida por excesso de ruído. Segundo Laura Sheets, advogada do caso, a alegação central é de que o barulho interfere de forma substancial no uso e no aproveitamento da propriedade, e que isso vale mesmo quando a empresa está dentro dos limites da lei municipal.

Rick Neitzel, professor de Ciências da Saúde Ambiental na Universidade de Michigan, chama esse tipo de instalação de fonte de ruído sem precedentes para comunidades residenciais, ligada a efeitos como pressão alta, problemas cardíacos e declínio cognitivo em exposições prolongadas. Um retrato de como a corrida por infraestrutura para treinar modelos de IA também tem um custo físico, sentido dentro de casa por quem mora ao lado.

O que a empresa diz

Em nota enviada à ABC7, a Hyperscale Data afirma que já desligou metade dos equipamentos de mineração e promete zerar o restante em até três meses, além de dizer que pretende reduzir o nível geral de som na região. A empresa também informou ter comprado dezenas de hectares vizinhos ao terreno, para usar como uma espécie de barreira natural contra o barulho.

Segundo a nota, o novo ciclo de investimento em IA e robótica deve gerar até 500 empregos em Dowagiac nos próximos três anos, incluindo vagas de nível básico. Casos como o de Dowagiac colocam concretamente uma pergunta que a expansão acelerada da IA pelo país ainda não respondeu para quem fica perto dela: quem paga o custo real de manter os data centers funcionando.

Perguntas e Respostas

Qual é a origem do ruído que incomoda os moradores de Dowagiac?

Provém do sistema de refrigeração 24 horas do data center de IA Hyperscale Data.

Que medidas a cidade de Dowagiac tomou contra o barulho?

Aprovou lei de ruído e multou a empresa por ultrapassar os limites estabelecidos.

Como a empresa Hyperscale Data respondeu às reclamações?

Promete desligar equipamentos de mineração e reduzir o som, além de expansão na IA.

Por que os moradores recorreram à Justiça?

Por excesso de ruído que afeta a saúde e o usufruto de suas propriedades.
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