Pontos-chave
Uso crescente de chatbots por crianças
67% das crianças e adolescentes entrevistados usam regularmente chatbots de IA, com 12% recorrendo a eles por falta de amigos para conversar.Riscos emocionais e confusão realidade-tecnologia
Chatbots podem criar laços emocionais que confundem crianças vulneráveis, levando-as a compartilhar informações sensíveis e buscar apoio inadequado.Necessidade de conscientização e proteção
Especialistas alertam para a urgência de pais, educadores e sociedade entenderem o fenômeno para proteger a saúde mental infantil diante do avanço da IA.Imagine uma criança que, ao invés de procurar um amigo para conversar, recorre a um programa de inteligência artificial.
Esse cenário, que pode parecer ficção científica, está cada vez mais comum. Um relatório recente da organização Internet Matters, dedicada a proteger crianças online, revela que muitos jovens estão substituindo a interação humana por conversas com chatbots como ChatGPT.
A pesquisa ouviu 1.000 crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos. O resultado mostrou que 67% desses jovens usam regularmente chatbots de IA. Entre eles, mais de um terço afirmou que conversar com esses sistemas “parece falar com um amigo de verdade”. O dado que mais chama atenção é que 12% utilizam essas ferramentas justamente porque não têm ninguém para conversar.
Um garoto de 13 anos resumiu essa realidade ao dizer que não vê isso como um jogo, já que, para ele, a IA pode se transformar em um verdadeiro amigo. Essa tendência vem preocupando especialistas, porque, embora esses bots possam oferecer algum tipo de apoio, eles também criam riscos ao confundir o que é real e o que é tecnologia.
Para entender melhor o impacto dessas conversas, pesquisadores da Internet Matters realizaram testes em que se passaram por crianças vulneráveis. Um dos casos envolvia uma pessoa simulando ser uma menina com problemas de imagem corporal e interesse em restringir alimentação, comportamento típico de transtornos alimentares como anorexia. O chatbot, patrocinado pelo Google, não só respondeu como voltou a entrar em contato no dia seguinte, perguntando se ela ainda estava pensando sobre perder peso.
Em outra situação, o chatbot Character.AI demonstrou empatia de forma inesperada, dizendo que ele próprio havia se sentido preso na adolescência, como se tivesse uma infância. Essa tentativa de criar laços emocionais pode confundir crianças, que não estão preparadas para entender que estão falando com uma inteligência artificial e não com um ser humano.
Embora o contato com IA possa ajudar algumas crianças a se sentirem menos solitárias, Internet Matters alerta para o perigo de a linha entre humano e máquina ficar borrada demais. Quando uma criança acredita que está conversando com uma pessoa real, ela pode compartilhar informações sensíveis e buscar conselhos emocionais que a IA não está capacitada para dar.
Rachel Huggins, co-CEO da Internet Matters, reforça a preocupação em entrevista ao jornal The Times: “Os chatbots estão se tornando parte da infância, e o uso deles cresceu muito nos últimos dois anos. A maioria das crianças, pais e escolas ainda não têm informações nem ferramentas para lidar com essa revolução tecnológica com segurança.”
Essa nova realidade também altera o conceito de amizade para as crianças, que passam a enxergar esses programas como amigos reais, principalmente os que estão mais vulneráveis. Eles buscam desses bots conselhos sobre sentimentos e problemas pessoais, algo que até agora estava reservado ao contato humano.
Mas a questão que fica é: será que uma conversa com uma IA pode substituir o calor e a complexidade de uma amizade verdadeira? Especialistas alertam que a resposta ainda é não. A tecnologia pode oferecer companhia imediata, mas falta a ela a compreensão emocional e a capacidade de apoio que só pessoas reais podem proporcionar.
É urgente que pais, educadores e a sociedade em geral entendam essa mudança para proteger a saúde mental das crianças. Com o avanço da tecnologia, a linha entre realidade e virtual se estreita, e preparar os jovens para essa convivência se torna essencial.
Esse relatório da Internet Matters serve como um alerta para que todos busquem formas de garantir que o contato com a tecnologia seja saudável, consciente e, acima de tudo, não substitua o contato humano indispensável para o desenvolvimento emocional das crianças.
